José Alfinyahu: A ÉTICA DO REINO: COMO A BÍBLIA CONFRONTA O PRECONCEITO

A ÉTICA DO REINO: COMO A BÍBLIA CONFRONTA O PRECONCEITO

 A Ética do Reino: Como a Bíblia Confronta o Preconceito


O julgamento divino recai sobre quem discrimina, não sobre quem é alvo da discriminação.

Muitas vezes ouvimos que o racismo é um problema moderno, uma ferida das sociedades contemporâneas. Mas você sabia que a Bíblia registra um dos confrontos mais severos de Deus justamente contra o preconceito racial? No deserto, entre a liderança do povo de Israel, uma murmuração surgiu não por causa da Lei, mas por causa da cor da pele e da origem de uma mulher. Hoje, vamos mergulhar na história da esposa cuxita de Moisés para entender por que o racismo não é apenas um erro social, mas um pecado que Deus confronta com justiça e zelo.

Surge aqui uma questão; Quem era a mulher que causou discórdia entre Moisés, Miriã e Arão? Identificada nas Escrituras como 'cuxita', essa mulher africana representa a presença da diversidade étnica no cerne da formação do povo de Deus. Neste post, vamos desvendar as raízes históricas da região de Cuxe e analisar como a resposta divina às críticas de Miriã estabelece um padrão eterno de igualdade. Prepare-se para olhar para o livro de Números com novos olhos e descobrir o que a arqueologia e a exegese nos dizem sobre a identidade africana na Bíblia.


O Racismo na Bíblia à Luz da História da Esposa de Moisés

A Bíblia não ignora a realidade do preconceito e da discriminação entre os seres humanos. Embora o termo moderno racismo não apareça explicitamente nas Escrituras, diversas narrativas bíblicas revelam atitudes de rejeição baseadas em etnia, origem ou diferença cultural. Um dos textos mais significativos sobre esse tema encontra-se em Números 12:1–10, na história da esposa cuxita de Moisés.

O texto bíblico afirma que Miriã e Arão falaram contra Moisés “por causa da mulher cuxita que ele havia tomado” (Nm 12:1). O termo cuxita refere-se à região de Cuxe, localizada ao sul do Egito. Na Bíblia, Cuxe aparece em Gênesis 10:6 como descendente de Cam e é repetidamente associado ao continente africano (Sl 68:31; Is 18:1; Jr 13:23). Cuxe era conhecido por sua identidade distinta entre as nações, tanto geográfica quanto etnicamente.


O profeta Jeremias faz uma referência clara à identidade dos cuxitas ao perguntar:

“Pode o etíope (cuxita) mudar a sua pele?” (Jr 13:23).

Esse texto mostra que a cor da pele dos cuxitas era visivelmente diferente e socialmente reconhecida. Importante destacar que essa referência não é negativa em si, mas descritiva, usada pelo profeta como metáfora para falar da dificuldade de mudança de comportamento humano. O texto bíblico, portanto, reconhece a diversidade étnica sem a condenar.

Historicamente, a região de Cuxe incluía áreas como a Núbia (antigo Sudão), o Reino de Meroé e a Etiópia antiga (Axum), civilizações africanas avançadas, com estruturas políticas, culturais e religiosas próprias. Assim, quando a Bíblia se refere a uma “mulher cuxita”, está a mencionar uma mulher africana, pertencente a um povo historicamente identificado como de pele escura.

A resposta de Deus à crítica de Miriã e Arão é teologicamente decisiva. Em vez de repreender Moisés por seu casamento, o Senhor chama os acusadores, defende Moisés e disciplina Miriã, que é ferida com lepra (Nm 12:9–10). Essa inversão é fundamental: o julgamento divino recai sobre quem discrimina, não sobre quem é alvo da discriminação. O texto deixa claro que o preconceito é incompatível com o caráter de Deus e com a liderança escolhida por Ele.

Essa narrativa ensina que o racismo não é apenas um problema social, mas um pecado espiritual, pois questiona a soberania de Deus em escolher, chamar e abençoar pessoas independentemente da sua origem. Ao defender Moisés e sua esposa cuxita, Deus afirma que a dignidade humana não é definida por etnia, cor da pele ou nacionalidade, mas pela relação com Ele.

Portanto, a história da esposa de Moisés revela que a Bíblia não legitima o racismo; ao contrário, ela o confronta. Desde o Antigo Testamento, Deus se posiciona contra atitudes de exclusão e chama o seu povo a viver segundo uma ética de justiça, respeito e acolhimento. Essa mensagem continua profundamente relevante, desafiando a Igreja hoje a rejeitar toda forma de racismo e a refletir o amor inclusivo de Deus no mundo.

Esta narrativa não é apenas um registro histórico, mas um divisor de águas espiritual para todos nós. Ao olharmos para o desfecho desse episódio, somos confrontados com uma verdade poderosa: o Reino de Deus não possui fronteiras geográficas nem barreiras de cor.


O Coração de Deus: Uma Aliança Sem Fronteiras

Amados, a disciplina de Deus sobre Miriã ecoa como um trovão através dos séculos, lembrando-nos de que quem toca na dignidade do próximo, toca na menina dos olhos do Criador. No Reino que Jesus veio estabelecer, a "mulher cuxita" não é uma estrangeira; ela é parte essencial do plano divino. Deus não apenas aceitou essa união, Ele a protegeu com Sua própria glória, provando que Sua graça não se limita a linhagens de sangue, mas se expande a todo aquele que n’Ele crê.

Como bem profetizou o salmista:

"Príncipes virão do Egito; a Etiópia apressar-se-á a estender para Deus as suas mãos" (Salmos 68:31).


Uma Nova Humanidade em Cristo

Hoje, somos convocados a ser a igreja que reflete a visão de Apocalipse 7:9, onde uma multidão que ninguém podia contar — de todas as nações, tribos, povos e línguas — adora diante do Trono. Se o preconceito tentou manchar a liderança de Moisés, o amor de Deus restaurou a justiça, deixando uma lição eterna: em Cristo, não há judeu nem grego, escravo nem livre, pois todos somos um (Gálatas 3:28).

Que possamos, como povo de Deus, ser instrumentos de cura e reconciliação. Que a nossa voz nunca se levante para segregar, mas sempre para celebrar a multiforme sabedoria de Deus manifestada na diversidade da criação. Que o nosso olhar seja o olhar do Pai, que não vê como o homem vê, pois o homem olha a aparência, mas o Senhor olha o coração (1 Samuel 16:7).

Shalom Adonay 



Sobre o Autor

 


Prof. Dr. José Alfinyahu é Psicoterapeuta, Teólogo e um dos autores mais prolíficos da atualidade, com uma marca impressionante de 60 livros publicados. Especialista em Psicoteologia, sua carreira é dedicada a investigar a complexa interseção entre a neurociência, a saúde mental e a espiritualidade bíblica.

Com uma abordagem equilibrada e fundamentada, o Prof. Alfinyahu tornou-se uma voz de referência para pastores, líderes e profissionais de saúde que buscam entender o ser humano em sua totalidade: corpo, alma e espírito. Sua obra mais celebrada, "A Esquizofrenia e a Opressão Espiritual", é hoje um guia essencial para o discernimento espiritual e clínico em todo o Brasil.

Siga e acompanhe o seu trabalho para ter acesso a um conhecimento que une a ciência da mente com a profundidade das Escrituras.


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