ALÉM DO SAGRADO E DO PROFANO:
Uma Análise Clínica sobre o Transtorno Dissociativo de Identidade e o Trauma Infantil
A linha que separa o colapso psíquico da manifestação espiritual é, muitas vezes, tênue e permeada por interpretações culturais. No cenário das comunidades de fé, fenômenos de alteração de consciência são frequentemente rotulados sob a égide da possessão ou do "endemoniamento". Contudo, quando olhamos através das lentes da psicodinâmica e da traumatologia, encontramos uma realidade muito mais dolorosa e humana: a fragmentação do "eu" como estratégia de sobrevivência.
A Dissociação como Escudo: O Mecanismo do TDI
O relato de um indivíduo que apresenta comportamentos agressivos, glossolalia (ou, neste caso, xenoglossia — o uso de línguas desconhecidas como o grego homérico) e alternância de personalidade nos remete diretamente ao que o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) classifica como Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI).
Diferente do que sugere o senso comum, o TDI não é uma "doença da mente", mas sim uma resposta adaptativa extrema. Quando uma criança é submetida a traumas graves, repetidos e inescapáveis — como o abuso sexual perpetrado por figuras de autoridade ou cuidadores —, a psique, ainda em desenvolvimento, não possui recursos para processar a dor. A solução biológica e psicológica é a dissociação.
"A dissociação é o processo pelo qual o sujeito se separa de uma realidade insuportável, criando 'compartimentos' mentais onde a dor pode ser isolada do consciente principal." (VAN DER KOLK, 2014).
O Fenômeno da Identidade Alterna: O Caso Carmen
No relato em análise, a emergência de "Carmen" e a subsequente revelação do abuso indicam a existência de um sistema de estados de identidade. A capacidade da jovem de recitar Homero em grego, algo que parecia sobrenatural aos observadores, pode ser explicada pela hiperamnésia seletiva ou por habilidades adquiridas em estados dissociativos anteriores, muitas vezes ocultos da personalidade "hospedeira".
A agressividade relatada não era um ataque gratuito, mas uma resposta de luta ou fuga de um sistema que se sentia agredido. O fato de o agressor ser o novo pastor da igreja — o mesmo local onde ela buscava refúgio — criou uma traição do trauma (Betrayal Trauma). Quando o local de cura se torna o local de perigo, a fragmentação se torna a única saída para a preservação da vida.
O Confronto entre a Dogmática e a Clínica
A resistência dos pares religiosos em permitir uma abordagem não-exorcista revela um vácuo de conhecimento sobre a saúde mental nas instituições. A "teimosia" do narrador em isolar a paciente e estabelecer um diálogo empático foi o que permitiu o rompimento da barreira dissociativa.
Ao perguntar "Quem está com você?", o interlocutor validou a experiência da paciente sem julgamento demonológico. Esse reconhecimento é o primeiro passo para a integração:
* Segurança: A retirada da multidão reduziu os gatilhos de estresse.
* Validação: O reconhecimento da dor legítima.
* Desvelamento: A nomeação do agressor e do trauma.
Considerações Finais: A Igreja como Espaço de Cuidado ou Gatilho?
O caso nos ensina que a repressão de traumas infantis não apaga a dor; ela apenas a enterra viva. Como aponta a literatura clínica, o que é suprimido no consciente acaba por retornar de forma somatizada ou dissociada. É imperativo que líderes religiosos e profissionais de saúde trabalhem em conjunto para identificar quando um fenômeno necessita de oração e quando exige intervenção clínica especializada e proteção legal à vítima.
O TDI não é um mistério teológico, mas um grito de socorro de uma mente que precisou se dividir para não ser destruída por inteiro.
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Shalom Adonay
Sobre o Autor
Prof. Dr. José Alfinyahu é Psicoterapeuta, Teólogo e um dos autores mais prolíficos da atualidade, com uma marca impressionante de 60 livros publicados. Especialista em Psicoteologia, sua carreira é dedicada a investigar a complexa interseção entre a neurociência, a saúde mental e a espiritualidade bíblica.
Com uma abordagem equilibrada e fundamentada, o Prof. Alfinyahu tornou-se uma voz de referência para pastores, líderes e profissionais de saúde que buscam entender o ser humano em sua totalidade: corpo, alma e espírito. Sua obra mais celebrada, "A Esquizofrenia e a Opressão Espiritual", é hoje um guia essencial para o discernimento espiritual e clínico em todo o Brasil.
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Referências Bibliográficas para Consulta:
* AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2023.
* FREUD, Sigmund. Inibição, Sintoma e Angústia (1926). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.
*JOSÉ ALFINYAHU, FACES DA UMA MENTE DIVIDIDA- O Transtorno Dissociativo de Identidade -TDI. Ed. do autor - Uiclap .
* VAN DER KOLK, Bessel. O Corpo Expulsa o Trauma: Cérebro, mente e corpo na cura do trauma. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.
* PUTNAM, Frank W. Diagnosis and Treatment of Multiple Personality Disorder. New York: Guilford Press, 1989.


















